quinta-feira, 19 de maio de 2011

POR QUE AS ESCOLAS NÃO FALAM EM DINHEIRO??

Um dos mistérios seculares da escola é a razão pela qual ela não dá ao dinheiro a mesma visibilidade que lhe é peculiar na sociedade. A escola mantém sobre o dinheiro um manto sacramental, de forma que este assunto se torna inexpressivo diante do universo da sabedoria.
Ocorre que, longe da apatia da escola pelo dinheiro, a sociedade adotou-o como base da construção de suas relações sociais. As crianças se inserem no mundo financeiro mais cedo que no mundo das letras. Elas interagem com o simbolismo monetário antes da alfabetização. Ativam seu cognitivo para a sobrevivência social vinculada diretamente ao dinheiro.
Então, como se pode explicar a ausência de programas de ensino sobre dinheiro nas escolas brasileiras? Alguns fatores cristalizam os esclarecimentos:

1. A IDÉIA DO DINHEIRO VINCULADO À LUTA DA POBREZA CONTRA A RIQUEZA.

No Brasil, as bases discussivas ideológicas dão conta de que há uma luta infinita entre pobres e ricos. Os cidadãos devem ser estigmatizados por classes sociais distintas, assim o reconhecimento da identidade social se fará pelo tanto de mais ou menos dinheiro que a pessoa tiver.
Estas idéias contribuem significativamente para a manutenção da estrutura social capitalista, pois uma vez caracterizada a identidade de um indivíduo, muito se deve fazer de esforço com o objetivo de fazê-lo absorver uma nova identidade de si mesmo. Ou seja, se alguém crer que é pobre, dificilmente mudará esse conceito, ainda que melhore suas condições financeiras.
Outro ponto a ser destacado nesta luta entre pobres e ricos é a vinculação dos valores qualitativos de ser rico e ser pobre. Normalmente, a riqueza está associada, na discussividade social corrente, à pejoratividade do caráter. Ser rico, em um país de maioria pobre, traduz sinonímia de pedantismo, exibicionismo, empáfia. Por outro lado, ser pobre (na concepção popular) carrega consigo um elenco de adjetivos estruturantes do bom caráter. É frequente, no discusso social politicamente correto, atribuir à pobreza valores inatos como humildade, lealdade, solidariedade, etc.
Ainda que, de forma tácita, exista uma consciência popular de que a personalidade do indivíduo não mantém uma correlação indissociável com sua condição financeira, pois existem ricos humildes e pobres soberbos, esta concepção de riqueza e pobreza atinge frontalmente a escola.

2. OS PROFISSIONAIS DE EDUCAÇÃO MANTÊM RELAÇÕES INSTÁVEIS COM DINHEIRO.

Um dos princípios básico do ensino é o exemplo. Falar de dinheiro, para os profissionais da educação, significa mexer em uma das mais dolorosas feridas da educação. Como se pode falar de algo que pouco está presente em sua realidade. A valorização dos profissionais de educação, em termos monetários, é ridícula, e é claro que isto promove um grande constragimento a estes profissionais no exercício de suas atividades, sobretudo para os professores. Se a sociedade elege a riqueza como o sucesso pessoal de um indivíduo, como validar um discurso sobre dinheiro, numa condição financeria questionável. Frequentemente, são ouvidos casos de professores humilhados por alunos que têm salários mais elevados que os seus.
Os estudantes não atribuem valor social aos educadores, de forma geral, pelo fato da situação financeira destes profissionais ficar veementemente exposta. As lutas pelas melhorias salariais são quase que previstas em calendário escolar, acentuando, assim, a vulnerabilidade monetária da classe do magistério.
Se, por conseguinte, os profissionais da educação não representam exemplo de boa relação com o dinheiro, o quê se há de ensinar ao alunado? Como, então, dar credibilidade ao que se ensina, desautorizado pela realidade?

3. TER X SER: FILOSOFAR X CAPITALIZAR.

Outro ponto sensível, nesta discussão sobre o porquê a escola não fala sobre dinheiro, situa-se na natureza social da escola. A instituição escolar é conhecida como catalisadora de conhecimentos. Sua função primordial é salvaguardar o conhecimento como um bem cultural, a fim de que os elos não se quebrem entre as gerações.
Deste ponto de vista, o capital do cidadão é o conhecimento, o qual deve dar ao individuo os meios necessários à sua sobrevivência social digna.
Posto isso, pode-se inferir, então, que muito dos tabus estabelecidos para o não ensino do dinheiro como conteúdo programático derivam desta concepção. Conhecimento é capital intectual. O problema é a transposição do capital intelectual em capital financeiro. A escola esbarra mais uma vez no rol de seus valores. Em todas as eras foram nutridas concepções de que ser é mais importante que ter. 
A filosofia fomenta o mundo do conhecimento como libertador e o conhecimento se estabelece no ser e não no ter. Retroceder a este pensamento seria negar a própria identidade da escola.
Entetanto, a sociedade convive com problemas mais "existenciais", no sentido da sobrevivência do corpo. Comer, vestir, calçar, dependem mais do mundo do ter que do ser. Saber lidar com o dinheiro, para, inclusive adquirir conhecimento, é mais sólido, socialmente falando, que qualquer argumento filosófico contrário.

Por enquanto, ficamos aqui, Continuamos na parte II.

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